O tato no contato
O uso de equipamentos de proteção individual, os tais EPI, transformaram os atendimentos clínicos em condutas seguras para o profissional e para o paciente.
Nos anos 80, com o aumento de pacientes com AIDS,esse procedimento tornou-se rotineiro.
Pacientes que diziam não ter AIDS estranhavam ( e os clínicos também!).
Achavam desnecessário,alguns se sentiam ofendidos!
J. era paciente no ambulatório odontológico de uma instituição de ensino .
HIV positivo, apresentava candidíase (prá quem não sabe é “sapinho”) na boca e na faringe.
Para atender HIV positivos,usávamos roupas cirúrgicas descartáveis, além do EPI.
Ficamos compadecidos pelo J..
Teve pneumonia.
Voltou ao hospital ficando em área de isolamento.
Sempre que dava um de nós ia vê-lo.
Medicado, melhorou.
E voltou para sua rotina de tratamento no ambulatório odontológico.
Certo dia , ao afastar seu lábio esqueci de por luvas e fui alertado pelo J. !
Disse a ele que estava tracionando a sua bochecha e assim não tocaria em mucosa.
Segundo J., há muito, não sentia o toque de outra pele na sua.
Sempre havia uma luva entre este gesto. Pediu para tocar suas mãos em nossas mãos.
Feliz. Falou que voltou a ser gente!
J. morreu das complicações da AIDS.
Pneumonia.
Para J., que nos ensinou a importância do tato no contato!
Marco Mammoli
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