domingo, 8 de agosto de 2010

Os sentidos 3

O tato no contato

O uso de equipamentos de proteção individual, os tais EPI, transformaram os atendimentos clínicos em condutas seguras para o profissional e para o paciente.
Nos anos 80, com o aumento de pacientes com AIDS,esse procedimento tornou-se rotineiro.
Pacientes que diziam não ter AIDS estranhavam ( e os clínicos também!).
Achavam desnecessário,alguns se sentiam ofendidos!
J. era paciente no ambulatório odontológico de uma instituição de ensino .
HIV positivo, apresentava candidíase (prá quem não sabe é “sapinho”) na boca e na faringe.
Para atender HIV positivos,usávamos roupas cirúrgicas descartáveis, além do EPI.
Ficamos compadecidos pelo J..
Teve pneumonia.
Voltou ao hospital ficando em área de isolamento.
Sempre que dava um de nós ia vê-lo.
Medicado, melhorou.
E voltou para sua rotina de tratamento no ambulatório odontológico.
Certo dia , ao afastar seu lábio esqueci de por luvas e fui alertado pelo J. !
Disse a ele que estava tracionando a sua bochecha e assim não tocaria em mucosa.
Segundo J., há muito, não sentia o toque de outra pele na sua.
Sempre havia uma luva entre este gesto. Pediu para tocar suas mãos em nossas mãos.
Feliz. Falou que voltou a ser gente!
J. morreu das complicações da AIDS.
Pneumonia.

Para J., que nos ensinou a importância do tato no contato!

Marco Mammoli

Os sentidos 2





Lavândula
As sensações dos aromas e dos gostos...

A gente sabe, desde que nasce, que aromas e gostos nos guiam.
Que nem faro de bicho.
Aroma e gosto de doce pela casa dizendo que o fim de semana está próximo...
De bolo dizendo que vai ter visita...
De gemada com canela dizendo abraço quentinho...
De café dizendo bom dia!
De perfume dizendo estou limpo...
De terra molhada dizendo que chove.
De flores dizendo bem vindo!
De goiaba dizendo infância...
Ah! E de cravo dizendo doce de abóbora!
Aromas e gostos nos falam em silêncio.
E tempos depois, nos colocam nesses cenários novamente.
Aromas e gostos trazem sensações várias para cada um de nós.
Mas,sensações que dependem do contexto em que elas ocorreram.
Para uns falam,com saudade,de boas lembranças das nossas “pequenas” alegrias.
Para outros nem tanto!

Nem só memórias agradáveis são evocadas pelos aromas e gostos.
Me recordo de uma senhora,viúva, que apresentava DCM, e enjoava com o cheiro do óleo de cravo. Daquele usado em curativos dentais e que dão aquele cheirinho de consultório odontológico.
Dizia que o cheiro de cravo a deixava com “muita raiva e irritada”!
Mudamos para o primeiro horário. Janelas abertas,incenso de lavanda.
Sem cheiro residual do cravo no ambiente.
Ao final do tratamento, me disse o porquê de tal intolerância ao cravo.
Seu marido, quando vinha mascando cravo, invariavelmente a possuía à força e com violência.
Durante todo o seu casamento!

Sensações escritas com tinta invisível nos corações,algumas difíceis de apagar quando precisamos!

Marco Mammoli